ENTREVISTA – ANDRÉ TEOMAN ABOUT CHARTRES

Há uns tempos atrás fui abordado por três estudantes (Ana Passos; Jessica Costa; Margarida Novais) de Design de Ambientes do IPVC-ESTG para uma entrevista sobre o meu trabalho focando no Chartres com o objectivo de um trabalho para a unidade curricular de Teoria do Design. Após algum tempo de responder a estas perguntas pertinentes achei que seria interessante partilhar a entrevista visto que o resultado final foi bastante satisfatório.

-O que o levou a seguir a área do design como atividade profissional?

 Antes de mais obrigado por se terem lembrado de mim para o vosso trabalho, espero estar à altura das espectativas.

Bem, para responder a esta pergunta tenho que recuar no tempo até 2009. Não vos vou dizer que nasci com ansia de ser um Designer, pois até a uma certa idade nem sabia que tal disciplina existia. Penso que é uma realidade pela qual a nossa geração passou mas que a próxima já estará mais informada, nem que seja pela palavra “Design” inserida num contexto apenas de marketing… infelizmente. Desde novo sabia que estaria envolvido com alguma área criativa no futuro, apenas não sabia o veículo criativo que iria usar, até que em 2009 tive a sorte de me “esbarrar” com este. No meu segundo ano do secundário, tive a oportunidade de conhecer este mundo pelas mãos da Professora Paula Tavares, neste momento diretora do curso de design no IPCA, e muito provavelmente sem ela nunca teria aparecido este André Teoman designer. Nesse ano ganhei um concurso interno no qual fiquei responsável por toda a comunicação da escola ESSMM, na altura ESPSMM, e foi uma experiência agradável na qual pude por em pratica a minha ansia pela criatividade. De facto encontrava-me vários dias seguidos a ser “expulso” das oficinas pelo funcionário que fechava a escola por não sentir o tempo passar. Logo aí percebi que queria fazer disto mais que a minha atividade profissional mas sim parte de mim.

 

-Qual ou quais são os designers favoritos?

 Imagino que esta pergunta tenha a ver com as minhas influências e inspirações. Se respondesse apenas com designers estaria a ser vago, pois o universo que seguimos vai ser aquilo que se molda ao redor da nossa imaginação e a maneira como o percebemos torna o nosso trabalho único. Por isso vou tentar responder à vossa pergunta de uma forma mais ampla.

Tento estar atento a tudo, principalmente a todos os mundos criativos, desde arte, cinema, música, design, literatura… isto claro filtrado ao meu gosto pessoal. Gosto de conceitos que nos façam pensar, que não tenham a sua mensagem chapada mas que esteja lá nem que leve tempo a percebe-la. Os objetos à nossa volta não se devem limitar à sua função, para isso já o mercado tem muita oferta. Gosto de ver os objetos quase que como uma anedota, em quando se chega ao fim é que se percebe o todo. Bem mas vou começar a apontar nomes. Temos que estar conscientes que dentro do design existem várias áreas completamente diferentes às quais devemos estar atentos, por exemplo… no mundo do gráfico, admiro imenso o Stefan Sagmeister pelo seu percurso inovador, mas temos também bons exemplos cá em Portugal como o João Faria, ou o Ricardo Mealha. Já num mundo mais “meu”, o de produto, não consigo evitar arrepios quando em feiras internacionais passo por trabalhos de autores como os Irmãos Campana, Maarten Baas, Marcel Wanders, Jaime Hayon, Nika Zupanc, Ross Lovegrove, Fabio November, Andrea Branzi, Studio Job, Irmaos Bouroullec… a lista é imensa, mas dá para perceber, que estou principalmente atento a designers que tem uma forte prática em peças assinadas. Peças estas que representam um pouco do que eles são, de onde eles vêm, e que normalmente não tendem em agradar o todo mas sim um nicho sensível a estas novas tendências. Depois claro temos Tim Brown, que é uma influência enorme na forma como me relaciono com o mundo na perspetiva de um designer. Foi dos autores que me fez perceber que não devemos usar esta ferramenta de Design apenas para criar objetos materiais mas sim tudo o que possa ser melhorado… e tudo pode. Para concluir, como disse em cima, estou atento a tudo, não só autores, mas também ao mundo à minha volta. Tive a oportunidade de crescer entre duas culturas completamente diferentes que deixo que me inspirem todos os dias, e sinto-me privilegiado por tal. Criar e perceber o “nosso” mundo de influências e das pequenas coisas que mexem connosco, é importante para que o resultado do nosso trabalho seja consistente e represente o que somos.

 

-Qual é o propósito do candeeiro?

 Vamos começar logo por excluir o propósito puramente de “iluminar” pois isso é o que todos os candeeiros fazem. Focando-me mais sobre a forma como este candeeiro ilumina, Chartres, pretende criar emoções. Adulterando a máxima, “form follows function” nesta peça a forma segue a emoção. Todo o seu storytelling singularmente moderno em contraste com uma técnica tradicionalmente associada à religião, dá ao utilizador uma sensação de estranheza que com tempo se entranha. Este carrega consigo um grande valor cultural de uma técnica usada desde o medieval até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que choca pelos seis capítulos satíricos da história do mundo. Toda a sua estrutura também envolve um processo manual que acaba por dar valor à peça. Quando me refiro à manualidade e artesão, não me estou a referir ao “tosco” nem a tentar desculpar acabamentos que possam ficar mal feitos, esta manualidade tem que ter mais qualidade que a indústria se quiser ser sustentável. Isto tudo em conjunto com o efeito luminoso que as 6 cores de vidro trazem a qualquer interior, espero que despertem ao utilizador emoções que uma peça unicamente funcional não lhes ofereceria. Emoções que em tempos a religião tentava usar em sua vantagem para criar um espaço divino, hoje podem fazer do espaço casa um local divinal.

-No quê ou em quem se inspirou para criar o Chartres?

 Eu costumo dizer que tenho dois caminhos para a criação de algo, mas em ambos estou atento a tudo o que referi anteriormente na resposta aos designers favoritos.

Não é algo que controle, para já, mas por vezes sei exatamente o que quero, apenas não sei como lá chegar, noutras é o oposto (como se costuma dizer “tive um clique”). Passando a explicar com dois objetos diferentes, a Kaleidoscope, uma das minhas mais recentes criações, o seu processo foi demorado, pois eu estava apaixonado com a ideia de criar uma mesa, apenas não sabia como, para quem, nem porquê, e foi um processo pensado e metódico até ao momento mais pessoal. Já no caso do Chartres foi o tal “clique”. Não sou uma pessoa religiosa, de todo, e talvez este ver de fora, esta parte espiritual das culturas com que convivo me tenha ajudado. Tanto na religião cristã como na muçulmana os vitrais adornam os seus espaços de culto, cada um à sua maneira, foi então ao visitar um espaço destes que me lembrei “e porquê não criar à minha maneira também?” O facto de uma técnica ser usada para um propósito não a proíbe de vir a ter outro. Logo de início sabia que queria quebrar a ligação desta técnica à religião, aproveitando apenas o efeito mágico que esta combinação da luz com o vidro colorido traz para o interior desses espaços. Poderia dizer que o que me inspirou foram estes murais de vidros, mas na verdade foi a combinação de toda a minha vivência até aquele dia combinado com o meu estado de espírito naquele local. Mas não pensem que depois do clique foi de um dia para o outro até chegar ao resultado final, nenhum dos dois processos é instantâneo, lembrem-se que até Deus demorou 7 dias para criar o mundo. Mas neste caso tinha um objectivo traçado, o que ajuda ao processo ser normalmente mais rápido e apaixonante que o outro.

-Qual foi o processo criativo?

 Acho que a resposta em cima já esclarece bastante esta pergunta, mas vou tentar aprofundar o processo num todo.

Um processo criativo não tem um início e muitas vezes nem chega a ter um fim, nós como designers, entidades criativas, não podemos dizer ao nosso cérebro “agora chega, estás de férias”. Estamos sempre a absorver informação visual, intelectual, auditiva… e a forma como a percebemos e armazenamos na nossa memória irá ser o combustível para uma futura criação, quer seja amanhã quer seja daqui a 10 anos. Esse processo de adquirir experiências é diferente de pessoa para pessoa, mesmo que eu e vocês tenhamos passado por uma vida idêntica o resultado da nossa resposta a um briefing também este idêntico seria diferente pois vocês estiveram atentas a coisas que eu não estive, e vice-versa. A forma como trabalho esta informação é como disse em cima, por vezes intuitivo outras vezes metódico. Mas já Picasso dizia “inspiration exists, but it must find you working”. E hoje em dia vivemos num mundo de oportunidades virtuais que os nossos antepassados não tiveram a oportunidade de usufruir. Hoje podemos testemunhar pelo menos visualmente, culturas, paisagens, criações, destruições… tudo à distancia de um motor de busca. Por fim tento juntar a esta caravana em andamento o estudo no local com pequenas indústrias procurando as soluções mais vantajosas para a produção deste, muitas vezes mudando mesmo a ideia final que tinha do projeto de forma a se adaptar a uma realidade produtiva.

 

-Qual o seu público-alvo?

 Esta é uma pergunta interessante. Uma que pessoalmente foi preciso chegar ao mercado de trabalho para ter uma resposta mais concreta. Penso que com público-alvo vocês se estarão a referir a quem adquire/usufrui da peça. A verdade é que o meu mercado neste momento é repartido por várias fatias que tento dividir atenção, entre lovers (pessoas que gostam do trabalho mas não pretendem adquirir), clientes finais, profissionais (interior designers, decoradores, retail, hotéis…), e press. Todos são importantes, e manter o equilíbrio entre notoriedade e vendas é o grande desafio, no qual conto com a experiência do Francisco para não sairmos do rumo certo. Não posso criar algo puramente lucrativo se for contra quem gosta da identidade da marca, pois estaria a perder essa mesma identidade, da mesma forma que não posso criar algo puramente conceptual que vá de encontro com tudo aquilo que acredito mas que não se cruze com as necessidades do mercado. Temos que ser utópicos, mas com os pés na terra, pois ser criativos em termos de negócio de design é por si uma disciplina fascinante.

 

-Que sensações/emoções pretende oferecer aos consumidores?

 Isto das emoções é um bocado subjetivo. Cada peça cria uma emoção diferente ao utilizador e cada utilizador certamente irá vê-la e senti-la à sua maneira. Mas focando-me no Chartres e num cenário idílico em que incutiria ao cliente as emoções que eu pretendo que ele sinta, seria sem dúvida felicidade e orgulho em possuir algo que vá de encontro com à sua identidade pessoal. Assumindo que este alguém dá valor a peças assinadas, com cultura, e que o emocionam por essas razões, não poderia pedir mais que esses dois substantivos abstratos. Sempre com esperança que venha a incutir no “vizinho” o mesmo gosto, pois os gostos não se discutem, educam-se.

 

-Após o Chartres estar acabado o que acha que foi mais difícil em todo o processo criativo?

 Todo o processo foi bastante agradável. Foi a minha primeira peça a solo, podem imaginar a constante adrenalina e receio de errar, sem ninguém para me orientar…. Minto, tive amigos, família e namorada em todos os momentos do processo a darem-me o seu feedback, o que acaba por ser um tipo de orientação. Tento manter um círculo de pessoas de confiança, tanto em termos de conteúdo como de sinceridade a quem vou mostrando as várias etapas do processo e que me dão um feedback realista e não romântico. Penso que a experiência deste processo pode ser comparada com aquele primeiro concerto que damos sozinhos para a escola em que os nervos estão sempre lá mesmo que disfarçados com um sorriso, mas no fim percebes o quanto agradável foi toda a experiência e queres saltar para o palco o quanto antes.  Mas pondo-me nos pés do miúdo em cima do palco… o momento mais sufocante foi sem dúvida a espera do feedback do público. O que acabou por ser a parte mais agradável quando comecei a ver a peça a ser bem aceite pela imprensa. Uma coisa é tu e as pessoas do teu círculo de confiança gostarem, outra é quando pessoas que nem sabem quem tu és falarem bem do que fizeste e partilharem no seu veículo criativo (revistas/blogs…) o teu trabalho, quando poderiam ter optado por outra peça qualquer de um mercado bastante saturado e competitivo.

-O que acha que o difere de outros designers?

 Deixam-me numa posição desconfortável de falsa modéstia ao ter que responder a esta pergunta. Mas por outro lado modéstia nunca foi o meu forte. Acredito que o que me faz diferente do que o mercado oferece neste momento, é tudo aquilo que referi em cima, a vida que vivi, as opções que tomei, o mundo a que estou atento, alguma sorte e azar, que acabo por conseguir transportar para aquilo que faço com um certo sentido de humor à mistura. Não me refiro aos básicos como a função, a interação, a resistência… mas sim a experiência que esta transmite. Vejam o negocio do café, todos os cafés oferecem um certo? O próprio nome dos estabelecimentos tem a palavra café como “tipologia” mas aquele que te oferecer a experiência que mais tenha a ver com a tua identidade vai ser o teu café favorito. Eu apenas crio mais “café” com a minha identidade que acredito que vá de encontro com as necessidades de responsáveis de projetos e interiores com os mesmos gostos e sensibilidades que eu. Certamente outros designers também são únicos à sua maneira, mas poderia descrever o meu estilo de design como art-design em que tento dar tanta (e por vezes mais) importância à emoção quanto à sua função livrando-me de qualquer máxima que exista contra este tipo de ideologia.

 

-O que é necessário para que considere um projeto finalizado?

Um projeto nunca esta realmente finalizado certo? A não ser que já não esteja em produção, e apenas se encontre numa vitrine de um museu. O desenvolvimento do produto é uma pequena parte da vida deste, depois do feedback do cliente é outra fase, e a constante produção desta outra, apesar de o designer/autor não fazer parte de todas estas fases. O mercado muda, as tecnologias de produção mudam, até a matéria prima muda, e as peças variam com essas e outras constantes. Um projeto sofre constantes adaptações, desde cadeiras dos Eames até vasos do Rashid…. mas até que ponto está finalizado para eles como designers? Se não for de produção própria dependerá do contrato ou relação pessoal que possuam com essa marca, se for produção própria o projeto continuará aberto até sair de mercado ou até passarem o “testemunho” para outro responsável. Normalmente esse fim de relação com a vida do objecto dá-se quando este chega a “maior de idade” e já não precisa do acompanhamento do autor, isto é, encontra-se afinada de tal forma que alguém responsável pela produção com a informação que lhe é passada consegue continuar o bom trabalho pretendido pelo designer.

 

-De todos os projetos que já criou qual o favorito e porquê?

 Penso que todos são. Como um pai para estes objetos não posso dar mais importância a um que outro, todos são únicos à sua maneira. Claro que tem objetos que me orgulho mais que outros, mas até isso muda com o tempo, pois a minha opinião também muda. Mas a verdade é que naquele momento, naquele contexto, fazia sentido, e tenho sempre carinho e esperança de sucesso para todos os projetos em que me envolvo. Isto quer seja em nome próprio quer seja para uma marca. Mas tentando por de parte a emoção/paixão por estes objetos e sendo o mais sintético possível neste momento a peça que mais se tem destacado é sem duvida a Kaleidoscope, tem tido muita procura, tanto da parte do mercado como da impressa, e tenho grandes planos para ela ainda este ano… aguardem pela surpresa.

– No futuro vai seguir as tendências do design ou optar por um conceito inovador?

 Normalmente evito seguir tendências e modas, gosto de estar atento a elas pois por vezes despertam algo novo, mas quando me envolvo num processo criativo a minha expectava passa por criar uma tendência, algo única à sua maneira, e que possa influenciar outros. De qualquer das formas não é algo que dê muita importância. Penso que já não vivemos num mundo em que apenas a tendência tem mercado, cada vez mais o utilizador é independente e constrói o seu gosto, a sua identidade, e aparecem todos os géneros de nichos que por vezes se tornam tendência mesmo sendo contra esta. O que realmente é importante é criar algo único, pois torne-se tendência ou não, faça parte da moda do momento ou não, terá sempre o seu valor, e a probabilidade de ter interessados aumenta significativamente.

Sinceramente estou num momento da minha carreira que não preciso de ter medo dos riscos e de preocupar se estou em voga. Eu vejo o mercado como um oceano, as grandes marcas e designers são como umas baleias enormes que dominam este mundo, mas que têm que pensar seriamente antes de tomar novos riscos pois a sua agilidade para mudar trajetórias não é tanta quanto a de um peixe pequeno que se está aventurar pelo oceano fora começando a deixar a sua marca conforme o percurso que faz com poucos olhos postos em cima para o caso de algum fracasso. Estou na fase que provavelmente será a de maior liberdade criativa na minha carreira/vida, e é nisso que me foco, não no que os outros fazem.

 

-Qual é o seu objetivo profissional para o futuro?

 Como disse em cima não vejo isto como uma profissão mas mais como uma paixão à qual tenho a sorte de me poder dedicar profissionalmente. O principal objectivo será manter-me sempre apaixonado e feliz pelo que faço. Tendo isso não tenho dúvidas que o sucesso do estúdio será cada vez maior, a relação com as marcas cada vez melhor, e os resultados individuais irão aparecer. Temos algumas parecerias alinhadas para um futuro próximo e objectivos ousados para o futuro, que com certeza irão ser superados e surpreendidos com resultados melhores do que os desejados. Tal como espero que vosso trabalho supere todas as expectativas e tenham um futuro brilhante na área do design. Muito obrigado por este pequeno momento.